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A piada de ser cientista

O projecto que junta ciência e humor numa fórmula explosiva surgiu com o propósito de reduzir o distanciamento entre cientistas e sociedade em geral
São cientistas com piada. Fazem stand up comedy e ganharam um prémio. Vão pelo nome de “Cientistas de Pé”, porque a ciência é muito mais do que um lugar no laboratório e porque é de pé que as piadas se contam.
Cabelos no ar, bata branca, hábitos de higiene um tanto ou quanto duvidosos e óculos com lentes de tal forma avolumadas que se torna difícil ver os olhos que se escondem por detrás delas – eis a imagem estereotipada que é tendencialmente atribuída aos cientistas. Afinal, eles trabalham em laboratórios, dizem palavras como iões e neutrões e utilizam instrumentos como a bureta, o balão volumétrico e o acelerador de partículas. No entanto, uma investigação levada a cabo por David Marçal, licenciado em Química Aplicada e doutorado em Bioquímica, com recurso a dados empíricos e à realização de experiências em campo, veio desmistificar esta imagem: os cientistas têm piada, fazem comédia e ganham prémios por isso. Surpreendente revelação de um segredo bem guardado. Nome de código: Cientistas de Pé.
O projecto surgiu em 2009 no contexto da Noite dos Investigadores, uma iniciativa levada a cabo pela Comissão Europeia com o propósito de reduzir o distanciamento entre os cientistas e os restantes membros da sociedade. “Cientistas ao Palco” encarregou-se de dinamizar o evento nos últimos dois anos com actividades insólitas como speed-dating com cientistas e espectáculos teatrais. É entre os últimos que se enquadra “Cientistas de Pé”, um espectáculo de stand up comedy que conta com a direcção de texto de David Marçal, a direcção de actores de Romeu Costa, a contribuição da organização sem fins lucrativos e com cientistas de várias áreas como protagonistas – aproximadamente sete, assim o disse David Marçal na introdução de um dos espectáculos, em jeito de prenúncio do registo que se avizinha.

Gostaria de fazer teatro?

Recrutar cientistas para fazer teatro é um processo cómico. À pergunta de Romeu Costa, “Gostaria de fazer teatro?”, feita a cientistas que se encontravam a trabalhar no Instituto de Tecnologia Química e Biológica da Universidade Nova de Lisboa, as reacções foram das mais variadas: desde o discreto “não tenho jeito para isso” ao entusiasta “Vamos a isso, é na boa”, passando pelo inevitável “Teatro?!” e pelo categórico “Não!”. Aqueles que embarcaram na aventura viram-se frente a frente com a execução de exercícios de expressão, de descontracção e afins – para baixo e para cima, tirar os óculos para não caírem, para a frente e para trás, gritar, berrar e falar dos tais iões e neutrões com raiva ou amor. Assim se faz de um cientista um actor. Afinal, na natureza tudo se transforma. O produto final, as várias actividades levadas a cabo no âmbito do “Cientistas ao Palco”, revelou-se um sucesso. Em particular, “Cientistas de Pé” foi exibido em diferentes zonas do país, bem acompanhado por gargalhadas audíveis por parte da audiência, e venceu o prémio Ideias Verdes 2010, uma iniciativa conjunta da Fundação Lusa e do Jornal Expresso que visa promover a expressão de novos valores na concretização de projectos inovadores na área do ambiente. Está visto, cientistas mais comédia igual a sucesso.

Goreti Faria
Daniel Vieira da Silva
 
 
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