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Conceição Nogueira em entrevista

18 por cento. Era o valor que separava o salário de homens e mulheres na União Europeia em 2009. Eles continuam a ganhar mais e em 20 anos pouco mudou.
Na passada semana a Comissão Europeia lançou uma série de medidas que se destinam a reduzir as disparidades salariais entre homens e mulheres nos próximos cinco anos.
O ACADÉMICO esteve à conversa com Conceição Nogueira. A professora do Departamento de Psicologia do Instituto de Educação e Psicologia da Universidade do Minho garante que, ao contrário do que se pensa, as mulheres não vão dominar o mundo. Pelo menos no futuro próximo e enquanto não existir um efectivo discurso igualitário.

Apesar da superioridade numérica no Ensino Superior as mulheres continuam a receber salários mais baixos do que os homens. Como se justifica tal disparidade?
Realmente em Portugal ainda existe essa disparidade. Aliás, existe em quase todos os países europeus com menor incidência nos nórdicos. É uma situação paradoxal, porque de facto as mulheres estão em maior número nas universidade, mas isso não se repercute no mercado de trabalho.
Pelo facto de estarem em maioria no ensino superior não quer dizer que estejam equitativamente representadas em todos os cursos e domínios. A maioria das mulheres frequenta cursos associados às ciências sociais e poucas estão em cursos de engenharia e tecnologia. Isto na realidade tem muita importância. As pessoas das engenharias conseguem mais depressa emprego e são melhores remuneradas.
No fundo saem mais mulheres licenciadas do ensino superior e a maioria delas até tem melhores notas do que os homens, mas quando entram no mercado de trabalho são quase sempre preteridas em relação aos homens nas mesmas circunstâncias.
Por um lado, as mulheres concorrem a empregos em que há muito desemprego. E por outro, subsiste a ideia no sector privado de que a mulher poderá vir a engravidar. Também por isso ganham menos.

A questão da maternidade é então inimiga da mulher?
Não é inimiga da mulher, mas a sociedade está a fazer desta uma situação paradoxal para a maior parte das mulheres. Grande parte acaba por se subjugar a uma série de coisas. A não igualdade na distribuição de tarefas, por exemplo.
A maternidade é algo que pode complicar a vida das mulheres. Teria de ser pensada uma forma mais igualitária. Não deveria estar só na mão das mulheres a resolução desse problema. Em alguns casos é um problema.

Mais mulheres licenciadas. O mundo do trabalho acabará nas mãos das mulheres? Assumirão no futuro mais papéis de liderança?
As pessoas gostam de falar muito na evolução e na tendência. Como se vêem mais mulheres no Ensino Superior as pessoas dizem: “Ah, no futuro vão ser as mulheres a mandar”. Nada mais enganador. Todos os estudos mostram que mesmo quando as mulheres atingem determinados graus, mesmo que quando conseguem entrar no mercado de trabalho, o caminho da progressão nas carreiras não é igual para homens e mulheres. Mesmo a maior parte das mulheres pensa que é quando entra numa determinada profissão. E pensa que o topo, o poder, a hierarquia está lá para si própria como está para o homem. Não está!
As mulheres no caminho encontram o que nós chamamos de glass ceiling – o Tecto de Vidro. Não se vê, mas está lá. A maioria mulheres depois não consegue chegar ao poder. E isso vê-se. As mulheres são mais licenciadas, mas não são elas as chefes. Há mais mulheres no desemprego. Apesar de serem mais numa determinada profissão não é seguro que no futuro serão líderes nessa profissão. E quanto mais as pessoas pensarem que não é preciso fazer nada, porque a evolução mostra que a quantidade de mulheres vai fazer que o poder mude, nada vai mudar.É umj engano profundo. Em nenhum país da Europa há indicadores e, em Portugal, muito menos.

Como é agora a sociedade portuguesa?
Muito tradicional ainda. Vai convivendo com aspectos de modernidade e de contemporaneidade mas ainda não conseguiu apanhar “o comboio” dos países do Norte da Europa. As mulheres, em muitas circunstâncias, são vítimas de estereótipos e sofrem muito esse estigma. Elas próprias interiorizam isso como sendo algo que lhes é inevitável. Natural até. Falo da sociedade. Homens e mulheres assumem ainda para si próprios papéis, poderes, possibilidades distintas em função do seu sexo.

Eles e elas têm vontade de diminuir esse fosso?
Há uma vontade política formal e dita mesmo na lei nesse sentido. Mas temo que não há uma vontade efectiva. Eu explico. Tenho dúvidas que haja uma vontade verdadeiramente interiorizada nesse sentido. Eu acredito que há muitos homens em situação de poder que não discriminem de forma intencional quando tomam decisões. Mas na práctica funcionam como discriminações.
A maior parte das pessoas pensa que já não discrimina. Esse é o grande  problema. Temos muito essa ideia de que há igualdade no discurso, mas depois no dia-a-dia, vai passando um discurso que não é igualitário. Quer por homens quer por mulheres.

E qual é a mensagem que deixa numa altura em que se assinala o Dia da Mulher?
Esta questão das mulheres são questões de projecto social. Homens e mulheres devem por isso estar alerta para todas as situações, mesmo aqueles mais subtis e inofensivas. Mas que na prática representam discriminação e atraso.
Homens e mulheres devem estar juntos em projectos feministas, porque não, na luta pela igualdade que ainda não existe. Apesar de existir na lei.

Cátia Castro
 
 
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