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Cem dias de governo numa só palavra: "expectativa"

"Expectativa" e "adaptação" foram as respostas mais repetidas, mas a conjugação do verbo "dialogar" também está em alta. Tal como em São Bento

Palavra repetida: diálogo. Mais por obrigação do que por desejo genuíno, seguramente, mas o verbo "dialogar" é aquele que mais tem sido conjugado em São Bento, no arranque da legislatura do novo governo de José Sócrates. A diferença entre uma maioria absoluta e uma maioria relativa vê-se nos pequenos detalhes: a "determinação" que emergiu como imagem de marca do primeiro governo de Sócrates tem agora cambiantes mais suaves. Uma espécie de travão. Em forma de mesa de reuniões.
Antes da tomada de posse, o resultado das legislativas antecipou a nova realidade: a perda da maioria absoluta forçou o primeiro-ministro a abrir portas a um "diálogo, sem condições prévias, para avaliar a possibilidade de contributos para a estabilidade política". Ou seja, dialogar para coligar. As reuniões foram infrutíferas, a oposição rejeitou dar a mão ao PS e o governo teve de avançar sozinho. Com a sua minoria parlamentar na retaguarda. Estavam lançadas as bases para uma legislatura feita de expectativa relativamente à adaptação do governo à nova realidade. "Expectativa" e "adaptação", precisamente as palavras mais repetidas nas respostas recebidas pelo i.
O primeiro recurso ao diálogo não foi, no entanto, totalmente desprovido de resultados: permitiu lançar para o centro da agenda política e mediática o fantasma da "ingovernabilidade". Nas suas diferentes aplicações, interpretadas por governo e oposição, consoante as conveniências: ora na versão "chantagem", ora na perspectiva "ameaça". Eram os sinais maiores de uma governação "instável", de "conflito" e "desassossego", como apontam José Azevedo (ciclista), Mário Laginha (músico) e Jorge Marrão (partner da Deloitte), respectivamente.
A célebre coligação negativa que aprovou na Assembleia da República um pacote de medidas económicas contrárias ao desejo do governo - incluindo a extinção do PEC, votada por toda a oposição - foi o ponto alto de uma tensão política que levou o Presidente da República, Cavaco Silva, a lançar sucessivos apelos à "responsabilidade" de todos os agentes políticos. O animal feroz da anterior legislatura vivia agora "enjaulado", como aponta o ex-bastonário dos advogados, Rogério Alves.
Sócrates reiterou várias vezes que o "espírito de abertura" do governo não se esgotaria na busca de coligações. "Assumo plenamente o valor do diálogo político e social, que é condição de estabilidade", garantiu no discurso de tomada de posse. Era a variante "diplomática", sublinhada por Seixas da Costa. Mas o debate em torno da possibilidade de eleições antecipadas prolongou-se durante semanas, arrefecendo apenas com o aproximar do novo ano. O governo "condicionado", de que fala Vítor Serpa - director de "A Bola" - tinha de procurar a "sobrevivência" referida por Basílio Horta, presidente da AICEP. Sobrevivência: a sua e a do país.
A crise económica assim o exigiu: o avolumar do défice, o aumento do desemprego e o crescimento da dívida pública acenderam novamente o vermelho nas contas do país. E mais vermelho do que o governo previra. José Eduardo Moniz (ex-TVI) elege, por isso, a "mentira" como palavra para descrever estes cem dias. José Manuel Fernandes (ex-director do Público) opta pelo "abismo" e Paulo Fernandes (CEO da Cofina) escolhe "desastre".
Independentemente das qualificações para as contas portuguesas, o grave descontrolo nas finanças da Grécia agravou a urgência de uma resposta. Qual? Diálogo, pois claro. Desta vez na busca de apoios que viabilizassem o Orçamento do Estado para 2010. E evitar a "confusão" ou "descredibilização" que Victorino d'Almeida (maestro) e Luís Menezes Leitão (advogado) dizem reinar neste arranque de legislatura. As intensas negociações das últimas semanas levam João Carvalho (economista) a apelidar o governo de "orçamentocrata". Mas os acordos alcançados com o PSD e o CDS foram um exemplo do "sentido de responsabilidade" invocado pelo governo e pela oposição de direita: o país não podia correr o risco de uma crise política num momento de grave crise económica.
Valeu o "improviso", diz Agostinho Miranda (advogado), num governo de esquerda que conseguiu negociar à direita. O mesmo governo que semanas antes aprovara os casamentos entre homossexuais com o apoio da esquerda. Um governo "camaleónico", acusa Paula Teixeira da Cruz. Ou "tacteante", sugere Ribeiro e Castro. Ou, talvez, um governo "Aguiar -à-vista", como ironiza Luís Paixão Martins: à espera que o principal partido da oposição defina se quer, ou não, viabilizar uma legislatura completa.

Notícia: i
Daniel Vieira da Silva
 
 
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