Na sua última entrevista como presidente da Associação Académica da Universidade do Minho, Pedro Soares fala da sua experiência como líder associativo ao longo dos últimos três anos. O presidente cessante falou também dos objectivos cumpridos, dos que ficaram por cumprir e das diferenças relativamente à AAUM de há alguns anos atrás. Pedro Soares, que iniciou o seu percurso associativo a organizar festas enquanto criança, partilhou com o ACADÉMICO os momentos bons e menos bons como representante dos alunos do Minho. Depois de três anos a lutar para melhorar o quotidiano dos alunos, Pedro Soares pretende acabar o curso de Biologia Aplicada e fundar o seu próprio negócio. Passados três anos como presidente da Associação Académica, que balanço fazes desta passagem pela AAUM?
Faço um balanço muito positivo, a vários níveis. Primeiro porque neste tipo de funções é preciso perceber se os objectivos foram cumpridos, se, de facto, ajudamos a Associação a crescer e se ajudamos os alunos que depositaram confiança em nós. É este balanço que importa ser feito aqui. A nível mais pessoal, eu cresci imenso e aprendi muito aqui. Mas também sou capaz de descobrir o que fiz mal, e esse é o melhor caminho para crescer. Se estivermos convencidos que fizemos tudo bem, não vamos ser capazes de melhorar. A Associação foi um bom espaço para essa aprendizagem, que é comum a todas as equipas. Só com equipas com capacidade de resposta, de crítica, mas também de entreajuda é que foi possível atingir todos os objectivos e elevar o patamar. E existem indicadores que me permitem dizer isto: o número de sócios da AAUM aumentou; as actividades são mais participadas pelos estudantes. Mas estes resultados eram esperados. Esta é uma Associação jovem e está assumidamente numa fase de crescimento. Esta foi a lista que obteve desde sempre maior número de estudantes a votar num mesmo projecto. E portanto, o balanço é positivo, porque conseguimos dar resposta às necessidades e anseios dos estudantes. É positivo porque os sinais de apoio e apreço dos estudantes chegam-nos continuamente, o que me deixa a mim e a todos os responsáveis das equipas muito satisfeitos. Agora que se aproxima o final do mandato o sentimento é de dever cumprido, acho que não fiz nada de extraordinário, mas fomos construindo algumas coisas que talvez só daqui a algum tempo vamos tomar consciência da sua importância. Existe a certeza de que demos o nosso melhor, que as equipas se dedicaram a defender a causa dos estudantes e da AAUM. A confiança de que os resultados são bons é inspirada no esforço e na dedicação que aqui deixamos.
O mandato está a acabar, mas até ao final ainda há acções para cumprir. Quais é que destacas?
Tenho de destacar todas as semanas até à tomada de posse. Uma deles é para desejar ‘Feliz Natal’ aos estudantes, as outras são repletas de actividades. Na próxima semana visita-nos o Presidente da República para encerrar uma actividade da Associação, o seminário Democracia Viva… Uma actividade que aproximou os estudantes dos decisores políticos. Este será um dos pontos altos até ao final do mandato. Neste dia há ainda uma entrega de donativos que surgiu de um leilão feito aos quadros que os artistas do Enterro da Gata pintaram no fim dos concertos, mostrado o carácter interventivo dos estudantes nos problemas da sociedade. Na próxima semana começa também o Campeonato Europeu de Taekwondo. Vamos receber algumas dezenas de países e de participante da Europa. Este será um dia repleto de desporto e cidadania. Pela noite os grupos culturais estarão no seu melhor no Theatro Circo, com mais um Celta, organizado pela Azeituna. Chegar ao fim do mandato e ter a visita do presidente da República, ter um campeonato de Taekwondo a começar e ter um Theatro Circo cheio: este dia caracteriza aquilo que era o objectivo da AAUM. Um dos maiores sonhos que tinha era poder imaginar um dia tão rico como este. O meu ideal de associação é este: uma AAUM que consegue estar presente na sociedade, que mobiliza os jovens. A AAUM é uma referência nas cidades de Braga e Guimarães e a nível nacional.
Na semana seguinte, a AAUM comemora o seu aniversário, em mais uma actividade com a participação da cidade e dos estudantes. Depois de desejarmos as boas festas, vamos organizar a segunda passagem de ano. Foi um sucesso no ano que passou e há-de ser este ano também. E logo a seguir acontece cá, no Minho, o encontro nacional de dirigentes associativos. Eu tive o privilégio de receber, enquanto presidente da AAUM, este encontro duas vezes. Este encontro mostra as preocupações que tivemos em relação à participação política desta associação no contexto nacional.
Consideras que ficou alguma coisa por fazer nestes três anos de mandato?
Imensa coisa... Felizmente, nesta associação só falta tempo para fazer mais, porque ideias, criatividade e vontade de fazer mais não faltam. Não conseguíamos fazer tudo aquilo que pensávamos. Mas óbvio que ficaram coisas por fazer e ideias por concretizar. Mas há ideias que estão em desenvolvimento e que têm de ser finalizadas. Há aqui um trabalho que tem de ser contínuo e é muito importante que não se perca. Muitos dos projectos que começaram a ser preparados em 2007 só em 2009 é que foram concretizados, mas são projectos desenvolvidos de uma forma sólida. Se não formos capazes de preparar o futuro, a Associação não cresce de forma estruturada. Temos de pensar no futuro com uma estratégia consolidada de crescimento e afirmação. Acho que a AAUM conseguiu ter rumo e estratégia e tudo isto tem também de ser desenvolvido pela próxima direcção, da mesma forma que nós tiramos partido de muito trabalho feito no passado e que foi fundamental para o sucesso de hoje.
Destes três anos de decisões, arrependes-te de alguma em concreto?
Houve decisões que fomos tomando que depois pusemos em causa, mas não me consigo lembrar de nenhuma em particular…
… Voltavas atrás para mudar o rumo de alguma decisão?
De forma drástica, não! É obvio que das centenas de decisões por dia, algumas não seriam tomadas da forma que foram. Nenhuma grande decisão pôs em causa aquilo que é o caminho da Associação. Mas em algumas, por vezes, chagávamos à conclusão que era preferível trabalhar com a empresa que, no início, recusámos. Mas não é nada com importância suficiente para ser agora aqui referido. Muito embora não voltasse a fazer algumas coisas, isso faz parte do crescimento.
Que associação deixas para o futuro? Que diferenças encontras entre a associação de quando cá entraste e esta que agora deixas para uma futura direcção?
A AAUM é a mesma, porque a sua história, a sua credibilidade e afirmação é superior a qualquer dirigente que por ela passe. A Associação Académica é a mesma instituição de quando para cá entrámos. Mas algumas características da Associação ficaram diferentes. A educação não formal é uma realidade hoje que não era o ano passado; o envolvimento dos estudantes parece-me ter vindo a aumentar; o orçamento da AAUM e o número de parceiros cresceram. Houve preocupações também ao nível das competências que os estudantes levam do ensino superior, nomeadamente cursos de primeiros socorros, workshops de procura de emprego, formações na gestão de conflitos, etc.. As actividades de formação complementar foram uma aposta desta Associação. O Enterro da Gata assumiu proporções que não tinha anteriormente. Mas eu quero deixar claro que, ao dizer tudo isto que fizemos não quero estar a dizer que fomos melhores que no passado. Tivemos foi um tempo diferente, com exigências diferentes e que nos obrigaram a sermos melhores. Fizemos o que tínhamos obrigação de fazer. Cada Associação tem sempre obrigação de ser melhor que no passado. Ao longo destes três anos houve um crescimento que resultou de um processo sedimentado. Houve uma preocupação de que, de ano para ano, soubéssemos quais as áreas em que devíamos melhorar. Fico satisfeito com o facto de termos tido capacidade de perceber quais os caminhos que queríamos seguir e os objectivos que queríamos atingir. Se foi em algumas áreas que quisemos melhorar, foi também nessas áreas que obtivemos os melhores resultados.
Destaco também uma coisa muito importante que conseguimos… que foi o reconhecimento da AAUM nos Estatutos da Universidade do Minho.
Que pessoas destacas, pela positiva e pela negativa, nesta passagem pela AAUM?
Essa pergunta é muito difícil e pode ser injusta se respondida de forma pouco séria e pouco pensada. Pela negativa não destaco ninguém. As experiências menos positivas com algumas pessoas foram também aquelas que mais me fizeram crescer. O maior desafio é mesmo saber interagir com diferentes pessoas.
Houve certamente algumas pessoas que se destacaram... Eu não vou mencionar nomes de entre os elementos que pertenceram às minhas direcções (foram tantos que tinha dificuldade em destacar alguns, correndo o risco de me esquecer de alguém), mas foram certamente esses os mais importantes. Fora deste contexto consigo destacar pessoas que tiveram especial importância. O professor António Guimarães Rodrigues, pela referência que foi, no que diz respeito à sua capacidade de trabalho, pela defesa intransigente dos interesses da UM e pelos constantes desafios que lançou aos estudantes. O Professor António Paisana, caso raro de amor às causas da Associação Académica e o Vasco Leão, actual administrador da RUM pelo exemplo enquanto presidente da AAUM e pelas palavras e conselhos importantes que me continua a dar. Estas são, sem dúvida, duas pessoas que gostava de destacar para já, mas a reflexão vou fazer com calma, vou fazê-la no último discurso que fizer enquanto presidente da Associação. Mas há algumas pessoas que me marcaram do ponto de vista pessoal, pela ajuda, pela lealdade e marcaram também esta Associação pelo excelente contributo que deram. Vou recordar com grande saudade e no último discurso que farei não posso deixar de dar uma palavra de incentivo aqueles que foram meus colegas de direcção quando fui vice-presidente do Departamento Pedagógico e depois quando fui presidente-adjunto. A todos os que me ajudaram a crescer enquanto dirigente associativo tenho de deixar uma palavra de agradecimento e reconhecimento.
Que momentos apontas como mais marcantes nestes três anos?
Houve muitos momentos que me marcaram, mas foram os pequenos gestos e as palavras de conforto que me marcaram mais. Eu podia dizer que foi quando tivemos 22 mil pessoas no Enterro da Gata, quando organizámos os CNU’s, quando fomos vice-campeões europeus universitários de andebol ou quando ganhámos um prémio de mérito desportivo. Muitos momentos me marcaram. Há um em particular que foi após dois meses de ser dirigente associativo (vice-presidente do Departamento Pedagógico), decidi fazer uma formação de delegados e estavam os 300 lugares cheios e pessoas sentadas nas escadas e tivemos um dia inteiro a debater sobre o quotidiano dos estudantes, sobre o RIAPA, sobre Bolonha... Fiquei muito surpreendido quando no final disse que voltavamos a reunir noutro dia, e todos responderam quase em coro que iam voltar a estar presentes. Este foi o meu acreditar de que vale a pena fazer actividades pedagógicas, vale a pena falar de coisas que são menos interessantes do ponto de vista lúdico, porque os estudantes querem e precisam deste tipo de informações. Essa foi uma motivação para todos os meus mandatos, a de ter uma atenção especial às questões pedagógicas, do meio académico e da qualidade de ensino.
Se do ponto de vista de grande motivação foi esse momento com todos os delegados, do ponto de vista pessoal, os meus colegas de direcção, aqueles que estiveram sempre a meu lado e que quando era preciso tinham as palavras certas para se ouvir, são estes momentos que ninguém vê mas que são muito importantes para conseguir continuar. São momentos que me marcaram e que eu não vou esquecer.
A nível pessoal, o que mudou no Pedro Soares com o passar destes anos na Associação Académica?
Por muito que eu diga que sou a mesma pessoa, acho que algumas coisas mudaram em mim. Tive de me tornar mais forte a nível psicológico, tive de me blindar às críticas fáceis. Saber lidar com quem nos critica de forma natural, foi uma aprendizagem. Felizmente, não tive de aprender muito nessa matéria, e aqui agradeço a todos os estudantes desta academia porque têm reconhecido o meu trabalho. Aprendi a lidar com as críticas da mesma forma que lidava com os elogios.
Tive também que aprender a lidar com os problemas de uma forma mais célere. Havia alturas em que não chegava só o esforço, era preciso o discernimento, a inteligência e a capacidade de tomada de decisão. Tive de crescer, de aprender a tomar decisões mais depressa, ser mais intuitivo. Há várias competências que se desenvolvem naturalmente no desempenho de funções como esta. Fiquei também com um conhecimento maior em áreas que tive de estudar, a nível de política educativa, vários temas, até de contabilidade fiquei a saber um pouco mais.
Tive ainda de aprender a compreender as diferentes pessoas que existem. Não há uma pessoa igual a outra. Os modos de trabalhar são diferentes e nós somos a mesma pessoa e temos de saber trabalhar com várias pessoas.
Houve outra coisa que mudou que não foi nada boa. Fiquei com menos tempo para os meus amigos, a minha família e para a minha vida pessoal. Isto é o mais negativo que eu posso destacar como presidente da AAUM. Tive muito pouco tempo para as pessoas de quem gosto, que me fazem falta e sinto saudades. Mas agora… Vou estar de volta! (risos)
Como achas que, com o desenrolar dos anos, se vai construir a imagem do Pedro Soares?
Só as pessoas o vão poder dizer. Uma coisa é certa: eu não vim para a Associação Académica para que reconhecessem o meu trabalho ao longo da história. Vim com um sentido de missão e de entrega ao trabalho, porque gosto, porque entendia que tinha alguma capacidade e vontade de fazer algo pelos meus colegas. A forma como eu seria reconhecido não era um pensamento que me preocupasse muito. Mas gostava que fosse algo simpático. Como disse há pouco, a AAUM é maior do qualquer pessoa. E todos os estudantes são muito mais importantes do que eu para o sucesso desta associação. Quanto mais parecido for aquilo que me quiserem chamar com os estudantes da UM, mais satisfeito fico.
Para o futuro, quais são os teus planos?
O meu primeiro objectivo é acabar o curso, porque já me falta muito pouco. Percebi o quanto gosto de associativismo e da participação, é algo que está inerente aquilo que eu me tornei. Mas neste momento o que me preocupa é acabar o meu curso. Sempre tive uma grande vontade de poder montar o meu próprio negócio. E é um objectivo que não está posto de lado. Mas agora é acabar o curso, fazer, talvez, uma pós-graduação…
… Mas manténs a mesma consistência na ideia de criar uma empresa como quando a tinhas no momento que entraste para a associação?
Sim, porque está muito relacionado com o que faço aqui. O espírito empreendedor que me acompanhou quando vim para a associação é agora mais forte quando saio da Associação. Este é um objectivo de longo prazo, porque há muito trabalho a fazer.
Mas a médio prazo, o objectivo é acabar o meu curso, que termino no final deste ano lectivo e não tenho mais nada planeado, para já.
O caminho da política poderá ser uma via a seguir?
Não está nos meus objectivos. Não é uma coisa que esteja no meu horizonte.
É certo que, à frente de uma Associação Académica, se desenvolvem algumas competências idênticas àquelas que é preciso ter na política. Mas isso não significa que tenha de ser assim. A política não é uma saída profissional. Ela só deve estar no horizonte de alguém quando essa pessoa se sentir útil à política e quando essa pessoa não usar a política para organizar a sua vida. Se me perguntarem se eu gostava de estar na política eu nem sequer saberia responder. Aquilo que sei é que posso abraçar os desafios em que sentir que posso dar algum contributo. Mas gosto e interesso-me pela vida política e acho que os jovens não devem deixar de assumir a responsabilidade da sua participação na política ou no associativismo.
Queres deixar alguma mensagem para os estudantes da UM?
Só posso agradecer a forma como abraçaram os desafios que lhes foram lançados através da AAUM. Só posso agradecer àqueles que aceitaram estar no associativismo. Cada momento de crescimento que um tenha tido por ‘culpa’ do trabalho da Associação Académica foi um grande motivo de satisfação para qualquer dirigente e para toda a equipa. Um agradecimento por se terem envolvido, participado, votado e escolhido os nossos projectos. Se os 87% dos votos na lista A no ano passado forem tidos como uma avaliação pelo trabalho feito, eu só posso agradecer por esses resultados tão motivadores.
Este último mandato foi importante para acabar um projecto que tinha vindo a ser desenvolvido. E conseguimos pôr alguns pontos essenciais a funcionar. Se não estivesse este terceiro ano, não teria visto o Presidente da República ter aceite um convite para estar presente no encerramento de uma das nossas actividades. O terceiro ano foi o tempo suficiente para sair da AAUM com satisfação e sentimento de dever cumprido. Um quarto ano não estava previsto, o timming não era certo e era também um exagero.
Daniel Vieira da Silva








































Ultrapassado que está metade do mandato de António Cunha à frente da reitoria da Universidade do Minho, o reitor faz um balanço positivo do que foi feito e abordou temas quentes na actualidade universitária.

