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“É um sonho ouvir a nossa música gravada e que ela soe como soou dentro de nossa cabeça”

O Programa de rádio “À Descoberta dos Sons” recebeu, na sua última edição, o Maestro António Victorino d’Almeida. Figura mediática que dispensa qualquer tipo de apresentações, o Maestro visitou-nos na RUM (Rádio Universitária do Minho) a propósito da recente edição de alguns trabalhos discográficos que contêm obras suas. A não perder, uma conversa descontraída com o Maestro, (nem poderia ser de outra maneira), sobre estes e outros temas, enquadrados por alguns exemplos musicais de obras deste fantástico compositor!

Considero inequivocamente que o Maestro António Vitorino de Almeida, independentemente das outras brilhantes facetas de escritor, divulgador, até actor ocasionalmente, é fundamentalmente compositor e para mim é o maior compositor, vivo português da actualidade. Fundamento essa afirmação assente em três vectores: o primeiro e mais importante a qualidade das suas obras, o segundo a quantidade, porque tanto quanto sei já vai no opero 154, que ultrapassa largamente as duas centenas de composições, doze prelúdios é uma obra, quatro estudos é uma obra, e o terceiro vector a diversidade que já escreveu para tudo que é possível escrever..
- Essas canções estão gravadas em vários discos, são cento e tal. O fado do Campo Grande acabei por escrever uma vez, até orquestrei, há um outro fado para o Carlos do Carmo que também escrevi, mas de um modo geral nem sequer estão escritos.

Não tem qualquer tipo de preconceito em abordar estilos diversos, aliás, habituei-me, desde criança a ouvir o Maestro dizer que não há música clássica e música ligeira, há música boa e música má em todos os géneros e todos os estilos?
- Devo dizer com curiosidade que fui em grande parte para músico, (os meus pais nunca fizeram nenhuma pressão no sentido de me manipularem, no sentido de ser músico), mas lembro-me perfeitamente que eu próprio me fascinei com a ideia de vir a ser músico, por ter visto, teria os meus 6/5 anos, um filme com o Stokowski nunca mais esqueci e era a quinta sinfonia de Tchaikovsky, dirigida por Stokowski. Queria só salientar uma coisa nesta gravação. As gravações podem ser feitas segundo dois ou vários critérios, há um critério que actualmente está mais defendido que é o critério da realidade, ou seja, o disco deve corresponder o mais possível aquilo que a pessoa ouve na sala. É honesto e correcto, ninguém pode pôr isso em causa, mas quem defende este critério, por outro lado também defende uma maior verdade daquilo que está a ser tocado, considerando que se houver muita manipulação, ou seja, se puser microfones como o Stokowski punha junto a cada instrumento, isso numa mesa de montagem, isso não corresponde efectivamente aquilo que a pessoa ouve na sala. Acontece que eu defendo o critério, não da verdade daquilo que o publico ouve, mas da verdade daquilo que o compositor pensou. E o compositor pensou assim… nós quando estamos a orquestrar e pomos um clarinete a fazer um crescente ou um minuendo, ou coisa assim do género, depois habituamo-nos a não o ouvir na orquestra quando olho para o público. Mas a verdade é que aquilo que nós imaginamos é isto que está aqui, quer dizer, há efeitos ali que não se ouve em nenhuma outra gravação e que o Stravinsky, ele próprio quando gravou também já não ouviu, porque já deve ter gravado segundo o sistema da verdade daquilo que o público ouve, é a verdade daquilo que o público ouve, mas não é a verdade daquilo que ele pensou, porque se ele não pensa-se não tinha escrito e se escreveu é porque gostaria. Esta gravação, digamos manipulada, mas é uma manipulação que vai de encontro ao arquétipo, ou seja, aquilo que há de mais verdadeiro na música, que é a verdade daquilo que esteve na cabeça do compositor. Por esta razão, eu, ao contrário de muitas pessoas defendo este tipo de gravação, aquele em que nós possamos na mesa de montagem subir, descer, manipular, não é aldrabar é ir de encontro à verdade mais profunda que é a verdade daquilo que estava na cabeça do compositor.

Neste caso, quase de certeza absoluta, não erro no que vou dizer, isto deve-se, com certeza à personalidade de Stokowksy, não só da sua intervenção da parte técnica do resultado final, uma vez que são gravações dos últimos anos e do contrato que ele fez já tinha 90 anos, parece-me, e ainda gravou muita coisa.
- Claro que se puser um microfone geral e um microfone virado para a direita e outro à esquerda e apanhando o aspecto geral da orquestra é mais realista em relação à plateia, de facto aquilo que a gente ouve nas salas de concertos é muito mais parecido com o que se ouve nos discos e gravados desta maneira, mas insisto, como compositor eu prefiro isto, isto é que é mais a verdade. E quanto ao problema de manipulação, hoje em dia a música pop-rock, por exemplo, há coisa mais manipulada e alguém se manifesta contra? Imaginemos que não se utilizavam os meios técnicos e tecnológicos existentes para produzir, quer se goste ou não daquele efeito e ninguém hesita... porque razão, na música sinfónica havemos de ser “freiras” e cumprirmos apenas com aquilo que corresponde efectivamente ao que se ouve na sala, eu prefiro que o público consiga entrar na cabeça do compositor.

Têm sido lançadas várias obras suas em CD ultimamente, por exemplo, o belíssimo quarteto de cordas, com o quarteto Lopes Graça, e também de um extraordinário CD, tudo edições numéricas, que é única. Este último tem a curiosidade de ter três obras do Maestro António Vitorino de Almeida, uma das quais um concerto para tuba e orquestra e orquestra de cordas e finalmente um divertimento para orquestra. O que é que lhe passou pela cabeça para escrever um concerto para tuba e orquestra?
- Para o qual, em princípio, não se escreve a verdade é que, é pena também. É verdade que não se encontram tubistas assim todos os dias com virtuosismo e musicalidade do Sérgio Carolino que é um fora de série em qualquer parte do mundo, portanto é normal que se escrevam poucos concertos para tuba, uma vez que também não há assim tantos tubistas. Mas isto é um círculo vicioso, escreve-se pouco porque há poucos tubistas, há poucos tubistas porque se escreve pouco. Esse talvez seja uma explicação e a melhor coisa é começar a olhar mais para as possibilidades e para as características deste instrumento. A tuba é um instrumento que ao contrário da sua dimensão que se impõe logo pelo tamanho quase abusivo, é um instrumento doce, naturalmente com uma sonoridade discreta. Não tem aquele rasgar do trompete ou dos trombones, por exemplo. Eu acho que a tuba, se os tubistas quisessem até era capaz de fazer muito mais barulho, mas eles não querem… Por mais que eu as vezes peça… porque uma vez ouvi um tubista numa peça, estávamos a ensaiar “O render dos heróis”, a certa altura ouve um som estalado fantástico e isso é óptimo. O tubista estava vermelhíssimo e a dizer: “eu enganei-me…eu enganei-me” e eu disse-lhe que era exactamente isso que eu queria, mas nunca mais consegui que o conseguisse. Mas a verdade é que sei que eles podem mas não querem, não faço ideia porquê, mas é muito comedido. Agora porque pretendem talvez desfazer a ideia que um instrumento de tal forma avantajado é um “bruta montes” e incapaz de fazer pianíssimo, aqui o Sérgio Carolino prova, à sociedade, como a tuba pode abarcar desde o fortíssimo ao pianíssimo, é um instrumento que tem todas essas possibilidades. E nas mãos de um grande virtuoso soa como qualquer outro instrumento.

Desde que me falou, tinha algum preconceito em relação à tuba na música de banda. O que é que lhe deu para um concerto de tuba? Mas realmente dou toda a razão ao Sérgio Carolino, as palavras que ele usa e acho que o maestro também o disse na altura. É um instrumento como qualquer outro e nas mãos de quem sabe escreve belíssima musica.
- Há que salientar o mérito de todos os intérpretes que permitiram que um concerto ao vivo possa estar num disco. É evidente que tudo que eu disse atrás sobre Stokowksy posso garantir que há ainda 50% de música que se podia salientar, se isso fosse gravado em estúdio. Há uma frase de José Régio “bem acenam mas o céu não lhes responde” e nós compositores, falo por mim, mas os portugueses devem pensar a mesma coisa, eu bem aceno para que haja apoios para se gravar música, o que perfeitamente acessível. Quando falo da cultura em Portugal a primeira coisa devia ser tirar três zeros, os outros três que lá estão são “roubados”. Sem esses três zeros vêm os preços autênticos das coisas deixam até os eventuais patrocinadores admirados, pensavam que era tudo do ao nível dos preços com os outros três zeros que se acrescentam. De qualquer forma é muito difícil obter patrocinadores, não sou eu que tenho dinheiro para andar a ir gravar nas condições ideais de onde resulta que a maioria das poucas obras que tenho gravadas, a maioria é em concertos ao vivo, aqui com a Orquestra  House de Linz, para mim uma das melhores orquestras mundiais, devo dizer. Tenho nomeadamente também uma amostra que excelentemente vai sair com breve com a Sinfonia Orquestra de Pequim, ao vivo. Também há manipulação da nossa parte, porque para ter moderação ao vivo nós temos de fazer uma mistura, mas temos que manipular um bocado o som para conseguir que se pareça neste caso, com o que os ouvintes ouviram na sala. Agora efectivamente é um sonho ouvir a nossa música gravada e que ela soe como soou dentro de nossa cabeça.

Outra obra que para mim é especialíssima, embora nem toda a gente seja da mesma opinião, é o Pluhar Lieder - Op. 74…
- O Pluhar Lieder - Op. 74, talvez poucos saberão, trata-se, que eu posso classificar quase como música ligeira, muito boa música ligeira, porquanto foi o movimento que a Erica, uma das grandes figuras da cultura austríaca, actriz, escritora, cantora como actriz, autora dos textos, juntamente comigo e com um búlgaro que infelizmente já morreu, que era um músico de jazz, quisemos fazer um recuperar da canção Vienense. No fundo esta para Viena como o fado para Lisboa e que também estava muito abastardado. Quisemos fazer uma recuperação vianense. E o que é engraçado é que essa recuperação foi feita por um português e por um búlgaro. Os originais eram para piano, guitarra e voz, mas depois decidiu orquestrar alguns deles e chamei -lhes o Pluhar Lieder.

O meu primeiro contacto com o Maestro António Vitorino de Almeida nasce de um concerto desses, em 1987, no Theatro Circo, em Braga, ai realmente ouvi esse trio. Devo dizer que não percebi uma palavra do que a senhora cantava ou dizia porque era tudo em alemão, mas independentemente disso a senhora tem uma força telúrica e uma presença em palco e imprime uma força as palavras e ao texto, que era de facto para ficarmos fascinados, ela é uma actriz que canta…e no fim foi quando abordei o Maestro Vitorino d’ Almeida…
- No fundo foi o que eu vi, em Paris, a minha filha Maria fazer, a Maria não canta, a Maria é uma actriz, só que o espectáculo quando ela canta em Paris e canta em português e depois, sem sair da música, começa a traduzir para francês aquilo, isso é muito emocionante. Mas isso é uma coisa que não tem que ser encarada como arte de um cantor, é arte de um actor que ela aliás foi muito influenciada pela Erica. A Erica tem uma voz incrível.  

Canção “Os heróis”, do ciclo Pluhar Lieder Op. 74 do maestro António Vitorino de Almeida. Para mim, é das coisas mais extraordinárias, uma vez que se apresenta sem preconceitos nenhuns, de coisa nenhuma. Não sei se quer contar a história?
- A primeira canção foi escrita para a Erica, sobre o texto dela. A segunda era uma melodia que eu fiz para uma companhia de teatro portuguesa e era uma peça de vanguarda muito engraçada, mas era cantada por uma actriz e o texto era absolutamente mais contrário à atmosfera romântica que aqui se nota, porque o texto dizia assim: ”Sonhei com rosas e excrementos”. Então a Erica ouviu e disse-me: “ Então não tens vergonha? Utilizar uma melodia destas a falar de rosas e excrementos? Isto tem que ter outro texto”… e escreveu outro texto. A terceira foi um auto-plágio meu, como muitos fazem… No fundo é o tema de uma peça minha para sexteto de metais e percussão chamado “O render dos heróis”, que a Erica também ouviu e adaptou-lhe um texto.

Toda a gente conhece o Maestro António Vitorino de Almeida, desde o arrumador de carros, à figura mais destacada.
- Tenho um público extremamente escolhido nas salas de concerto, desde arrumadores, a drogados, os guardas-nocturnos, a verdade é que em Caminha nos concertos que faço nas aldeias de Caminha, às segundas-feiras no mês de Agosto, a verdade é que se encontram camponeses e os concertos decorrem espantosamente sem tosses, o ar é melhor que na Gulbenkian e o pianíssimo é extraordinário, um silencio total, é maravilhoso.

E não se sente o tempo a passar, que é um sintoma excelente de um grande concerto.
- Muitas das coisas que nos oferecem, isto é, como as prendas de anos ou de Natal, também têm de ser embrulhadas. E as coisas nas nossas salas de concerto não são bem embrulhadas, de facto não são, a pessoa sente-se logo excluída pela forma como se lhe entrega uma coisa sem a mínimo de cerimonial simpático, não têm que ser antipáticos, nem formalista, mas o cerimonial em si pode ser uma coisa interessante, festiva, terna inclusivamente e não deixa de ser um cerimonial, esse de embrulhara a coisa, esse de introduzir aquilo que se vai ouvir para que a pessoa, enquanto a ouvir não diga “eu sou analfabeto, não sei nada disto, são coisas dos especialistas”. Para já é necessário que as pessoas percam esses complexos, são puros complexos, ninguém é obrigado a conhecer a música. Mas é desejável para a própria pessoa que sinta, que vibra, que goste ou que lhe agrade o que está a ouvir e isso é uma coisa que se pode conseguir introduzindo ou embrulhado, melhor aquilo que se oferece.

Propunha em complemento da sua ilustre visita que ouvíssemos alguma coisa do “Quarteto de Cordas” e gostaria também de transmitir na íntegra o “Divertimento para Orquestra”. Não sei se nos quer dizer alguma coisa sobre estas duas obras já em jeito de conclusão?
- O “quarteto de cordas” é uma estética completamente diferente, é uma estética  muito mais virada para as influências da escola de Viena. É do século passado, mas é dos inícios do século passado e a pessoa estar a insistir em que está a dar coisas novíssimas, e na verdade já têm quase 100 anos, é um bocadinho de exagero. Eu sempre utilizei a influência da escola de Viena, e já nos anos 70 achava que não devia tentar insistir em fazer uma coisa que já estava feita e, ainda por cima por quem, (grandes compositores). Isto para os ouvintes menos ligados é a mesma coisa que ouvir-se um fado cantado por Amália ou por Carlos do Carmo e vir um tipo qualquer cantar a seguir… Não era melhor que ficasse calado? Portanto fazer música depois deste três mestres, independentemente depois do corrente que mais tarde desenvolveu e veio a desenvolver de qualquer maneira está feito, o que está feito já foi.
O “Divertimento para a Orquestra” foi uma encomenda que foi feita por Miguel Graça Moura para a Orquestra Metropolitana da Lisboa que foi, sem dúvida alguma, um excelente trabalho e com todos os seus erros, a verdade nunca deverá ser esquecido aquilo que de bom foi feito e, portanto, estou muito contente por ter dedicado esta obra a Orquestra Metropolitana de Lisboa, do maestro Miguel Graça Moura, porque foi ele quem construiu todo o projecto e isso ninguém lhe pode tirar, independentemente de todos os erros, esse mérito é dele. E eu uma vez disse aí a um político português quando se pretendia enfim, considerar que o maestro Graça Moura tinha cometido alguns erros e cometeu, mas dizia “Cuidado não substituam uma pessoa cujos defeitos todos nós conhecemos por uma pessoa a quem não conhecemos nenhumas qualidades”. É o hábito que se segue em Portugal.

O que podemos esperar nos tempos próximos de novidade do Maestro António Vitorino d’ Almeida… O que está a escrever, o que está a acabar?
- Estou muito esperançado, em Novembro, que se estreie no Porto a Missa de São Francisco de Assis, grande orquestra, coro, cinco solistas, órgãos. Há a grande dificuldade de se arranjar uma orquestra, porque as que existem são as de Lisboa e Porto, o resto são orquestras de parte de cauda, efectivamente e não servem para grande concerto e naturalmente, em termos orçamentais, escolher ou pagar a músicos um a um encarece e eu acho que os músicos têm direito a receber o que é justo, sempre com os três zeros a menos, são os da “roubalheira”, que não vai para os músicos, nunca, que vai para os outros. Aquilo que os músicos ganham, eu sempre fui e continuarei a ser defensor que se paguem cachets que sejam dignos do trabalho que é feito, aí não cedo, nunca cederei. As vezes dizem-me “pagas demasiado”. Quer dizer que dispunha de um orçamento e que estou a desbaratar, não estou a desbaratar, pago aos músicos aquilo que eu acho que é justo é o mínimo que posso prestar por homenagem ao seu trabalho.

A grande novidade que ai vem é a “missa”?
- Dediquei esta missa a São Francisco de Assis a cães, a gatos, a vacas, a touros, a todos ao maltratados deste mundo…à irmã pedra, à irmã árvore que tão maltratadas actualmente. Hoje em dia ao maus tratos começaram pelas pessoas, são de “clínica geral “hoje em dia a própria natureza é já maltratada por este animal bastante estúpido. Eu queria ser zoólogo e como tal interesso-me muito por zoologia e conheço a definição de um animal de sucesso é um animal que dura milhões de anos, este que chegou só esta cá a 250000 anos o que significa que não é nada ao lado de um crocodilo, a melhor coisa era ficar calado.

Daniel Vieira da Silva
 
 
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