Na era do ‘Magalhães’, em que praticamente todas as crianças utilizam ou se preparam para fazer uso do computador pessoal como instrumento de estudo, o ACADÉMICO decidiu recordar o pioneirismo da UM quando, na já longínqua década de 80, muito antes de se conhecerem as potencialidades futuras da informática, se introduziu esta ferramenta nas escolas primárias do Gerês. António Osório, docente e investigador do Instituto de Estudos da Criança, foi um dos responsáveis.Muito se tem agora falado dos computadores no 1º ciclo. No entanto, o tema não é tão actual quanto isso...
Exactamente. Já há experiências do uso do computador nas escolas do 1º ciclo há mais de 20 anos. Nós, cá na UM, no âmbito do Projecto MINERVA, temos a experiência de acompanhar a introdução do computador nas escolas primárias já desde 1986/87. Logo no início, quando surgiram, em Portugal, os vários projectos para a sua introdução na educação, fizemos experiências com crianças pequeninas.
Um desses projectos foi sobre a implementação dos computadores e até da internet (muito antes de se falar nela), nas primárias do Parque Nacional Peneda-Gerês. Aconteceu numa altura em que havia cerca de mil crianças nas escolas das aldeias daquela região. Agora há bastante menos crianças e, portanto, a maior parte delas fechou. No entanto, há aspectos dessa experiência cuja actualidade não deveríamos ignorar. Lembro-me, por exemplo, que o nosso principal problema não foi tanto a falta de computadores, mas sim a falta de professores. Muito dificilmente se fixavam. Mas, após uma primeira etapa em que conseguimos a sua fixação, a reacção à introdução dos computadores nas salas de aulas, em geral, foi muito positiva. Diversos episódios me vêm à memória… Recordo, por exemplo uma situação em que, uma turma, por falta de telefone na escola para poder enviar uma mensagem de correio electrónico, transportou o computador até à habitação mais próxima com telefone, montou todo o equipamento, enviou a mensagem, desmontou tudo e regressou alegremente à escola!
Certamente, o computador pode ser utilizado muito além do correio electrónico que referiu. Que outras actividades podem ser postas em prática?
Existem imensas actividades que o professor pode fazer utilizando um computador. O próprio processador de texto pode ser utilizado como forma de melhorar a produtividade e até a qualidade da escrita. Por sua vez, um simples programa de pintura pode ter um uso muito interessante para desenvolver a expressão plástica. Sei também de professores que fazem projectos bastante curiosos de construção de protótipos de temas do próprio programa, sendo capazes de pôr as crianças a programar com linguagens informáticas apropriadas à idade.
Sobre este assunto é inevitável não falar especificamente no ‘Magalhães’. Qual é a sua opinião sobre esta nova ferramenta?
Do meu ponto de vista, há nisto um grande mérito do governo (ou de quem quer que seja que teve a ideia), pois não deve haver muitos países onde todas as crianças/alunos disponham do seu computador pessoal. Fornecer um computador a cada criança vai fazer com que a sua utilização seja quase obrigatória. Mesmo com falhas na sua entrega, eles vêm mesmo – é um processo imparável. Quer isto dizer que não vai haver alternativa para aqueles professores que dizem algo como “na minha sala, os computadores não entram!”. A verdade é que as crianças estão numa grande expectativa. Estão muito mais interessadas na escola porque estão à espera de receber o seu computador ‘Magalhães’ no dia seguinte. Vai ser muito difícil aos professores dizerem “não não, os meninos não o vão usar!”.
Mas é claro que isto traz depois outros problemas. Por exemplo, como vai ser nas escolas, no que diz respeito à existência de quadros eléctricos capazes de suportar trinta computadores? Como é que vai ser quando uma criança de seis, sete anos perder o computador ou lho roubarem? Vai criar uma série de novos problemas nas escolas.
No entanto, essa expectativa dos alunos não será assente numa ideia errada da verdadeira utilidade do computador? Não o consideram como mais um brinquedo?
Ainda não temos estudos que nos proporcionem os dados capazes de nos confirmar ou não essa ideia. Mas, como oriento algumas dissertações de mestrado de professoras que, numa base diária, promovem o uso individual do computador pelos seus alunos, tenho uma impressão diferente. As mensagens que recebo vão no sentido de que as crianças (mesmo as mais pequenas, do 1º ano de escolaridade, com 6 anos) se sentem mais responsabilizadas, demonstram assinalável autonomia para a sua idade, organizam-se quase naturalmente para estarem em condições de usar o computador… Ouço, por vezes, comentários no sentido de que, para usarem o ‘Magalhães’, até dispensam o intervalo e o recreio!
Relativamente ao ‘Magalhães’ como brinquedo ou divertimento, não me parece que as crianças estejam preocupadas com isso. Há um autor, Seymour Papert, que diz que existe uma relação “de amor” entre as crianças e os computadores, algo que, como adultos, não nos é fácil entender. Com certeza pode suceder que muitas crianças pensem que têm o computador só para jogar. Mas, qual é o problema? Porque é que não hão-de brincar com o computador? Será que, no conjunto dessas brincadeiras, não é possível integrar actividades interessantes? Será que aprender tem que ser necessariamente desinteressante? Aprender não é “giro”?; não é bom?; não é agradável?
Na sua opinião, as novas tecnologias no ensino são uma mais-valia?
Do meu ponto de vista, não faz muito sentido pensar se são ou não uma mais-valia. As TIC são coisas muito poderosas. Sendo bem utilizadas, podem ser mais do que uma mais-valia. E há muitas situações que se vê que há claras mais-valias. Mas também podem ser “menos-valias”. Por exemplo, o uso do telemóvel pode ser muito interessante. Um professor, como é por exemplo o caso da nossa colega Adelina Moura da Escola Secundária Carlos Amarante, que conduz interessantíssimas actividades educativas com os telemóveis dos alunos das suas turmas, utilizando a recolha de imagens, de sons, de comunicação entre os alunos para analisar problemas e produzir aprendizagens. No entanto, também sabemos de situações em que o telemóvel, numa turma, é um problema, porque distrai a atenção dos alunos ou porque perturba o andamento de uma aula. A mesma tecnologia pode ter um papel positivo ou negativo a desempenhar. A questão não será tanto se as tecnologias são uma mais-valia. Podem ser, podem não ser. Tudo depende do interesse que tenhamos em procurar ver de que maneira cada tecnologia pode ajudar no processo de desenvolvimento de uma criança.
Nuno Gouveia

Ultrapassado que está metade do mandato de António Cunha à frente da reitoria da Universidade do Minho, o reitor faz um balanço positivo do que foi feito e abordou temas quentes na actualidade universitária.

