Nasceu no Porto, chegou a estudar biologia na universidade mas foi com a Companhia Seiva Trupe que iniciou a sua carreira de actriz em 1977. Desde aí Ana Bustorff entrou em cerca de 40 peças de teatro, representando textos dos mais variados autores nacionais e estrangeiros. Na televisão, participou em dezenas de séries e telefilmes, mas é sobretudo no cinema que Ana Bustorff tem recebido maior aclamação pelo seu trabalho. A actriz regressa a Braga (esteve na génese da Companhia de Teatro de Braga), para apresentar “Concerto à la carte”, um monólogo de Franz-Xaver Kroetz. A peça estreia esta terça-feira no Theatro Circo. A Universitária/Académico esteve à conversa com a actriz que queria ser bióloga e que sonha viver num país tropical.“Concerto à la Carte”...é a peça que a traz de volta a Braga. Esteve, aliás, na génese da Companhia de Teatro de Braga. Como é que recorda esses tempos?
Ana B. – Foram tempos de uma enorme aprendizagem, de crescimento, de procura, de risco, como acho que continuam a ser. Entendo esta profissão com uma ideia de que não se deve parar a nível nenhum, emocional, físico, de risco, de procura, de existência, de transcendência... para mim é isso que me interessa.
Diz que esta peça é um desafio. Há trabalhos que são para si mais desafiadores do que outros. Este é o caso?
É sim. Até pelo facto de não haver texto, obriga-me a outro tipo de interpretação a que eu não estava muito habituada. Trata-se de uma performance de uma actriz durante uma hora e realmente levou-me a repensar imensas coisas. Este espectáculo traz-me à memória o facto de o ter visto tinha eu 20 anos, feito pela Isabel de Castro, era uma encenação da Cornucópia feita pelo Luís Miguel Cintra e Jorge Silva Melo. Foi um espectáculo que sempre me tocou, porque era muito nova e fiquei muito espantada com o que vi. Levou-me a sítios do meu imaginário que eu julgava impensáveis. Quando se pôs a hipótese de fazer um monólogo, houve um dia que pensei e disse: é isto que quero fazer!
Como é que emocionalmente se prepara para um monólogo. Não sente ansiedade por saber que é a única pessoa em palco, mesmo com todos estes anos de experiência?
A minha ansiedade e o meu medo tornaram-se maiores. Fazer um monólogo é uma coisa à partida “sem rede”, no sentido em que podemos controlar o que se vai passando em cena, não temos o perigo de falharmos a contra-cena com outro actor. Só que é um processo extremamente solitário e de um grande risco. Este trabalho para mim mexeu em coisas muito fundas e eu acho que nunca se está preparado. Nesse sentido, esta peça foi uma enorme aprendizagem acerca de mim.
Recordo-me que na conferência de imprensa de apresentação da peça, disse que, por vezes ainda se sente insegura. A Ana é um animal de palco, é genuína, uma referência do teatro português, com uma presença forte e marcante...como é que é possível sentir-se insegura?
Acho que me sinto insegura porque a vida não é uma coisa simples. Muitas vezes é muito agradável, mas são momentos que eu considero muito efémeros. Há que pensar que não se vive numa rua que é sempre a mesma. Acho que há muitos caminhos, e muitas vezes não saber que caminho devo tomar, causa-me insegurança. Acho que sei muito pouco e quero aprender mais, perceber o que é isto do pulsar da vida, da vida dos meus personagens e isso cria-me ansiedade por vezes. A vida assusta.
Já fez de mãe, de filha, representou mulheres sedutoras, uma rainha, uma prostituta ...entre tantas outras personagens. Ao longo destes anos como é que se desdobra em tantas personagens... é emocionalmente cansativo?
Obriga-nos a uma certa lucidez. E é sobretudo a ideia do prazer, do jogo. Acho que representar, por muito trágico que seja, dá imenso prazer.
Houve alguma personagem que tivesse mais dificuldade em deixar partir?
Não tenho medo de deixa-las partir, porque acho que partimos todos. Agora, há personagens que eu recordo com um prazer maior. Em cinema lembro-me bem do “Adão e Eva”, lembro-me dos “Sapatos Pretos”, lembro-me do “Fim”, um espectáculo do António Patrício que fiz aqui em Braga, “Os jogos da Noite” com encenação de Mónica Calhe na Casa Conveniente em Lisboa...e muitos mais, não quero ser injusta porque acho que já fiz coisas que me deram realmente um enorme prazer e que me ajudaram a viver, a crescer e a expor-me. Acho que o trabalho de um actor obriga a um lado de uma procura de uma verdade, de existência, de um lado genuíno e sério. Prefiro isso a ser-se tecnicamente perfeito, até porque não sou uma actriz muito técnica.
Já esteve no desemprego, ou teve sempre trabalho?
Nem pensar! Inclusivamente depois de ter feito a série Equador, seis meses após a série, estive desempregada. Já me aconteceu estar quase dois anos desempregada. Só a pouco tempo é que decidi ter uma agente. O que eu acho inacreditável nesta profissão é o facto de as pessoas serem obrigadas a pagar a segurança social e depois quando estão desempregadas nem sequer terem direito a subsídio de desemprego. Isto é lamentável.
Foi o que sempre quis, ser actriz? Chegou a estudar biologia na universidade?
Não. Ser bióloga era o meu sonho. Um sonho completamente romântico. Fazer investigação no Amazonas... em África. Aliás o meu sonho é viver em África, ou num continente em que o clima seja tropical...gosto de calor e gosto das pessoas que normalmente vivem no calor, junto à água, à areia e junto à mata tropical.
É muito auto-crítica?
Intransigente, exigente. Nunca estou satisfeita. Como diz o Kroetz “a insatisfação é uma doença”...eu acho que padeço dessa doença.
Tem um sentimento especial a sua participação nesta produção da CTB... volta a trabalhar com o Rui Madeira e também com o seu filho...
E com outras pessoas que eu gosto muito. E isso é muito bom, não deixa de ser engraçado. A vida fez com que as coisas fossem assim. Não foi programado. É engraçado juntarem-se três pessoas... pai, mãe e filho. Mas este espectáculo não vive só deste trio. Vive da Solange Sá, do Carlos Sampaio, da Sílvia Alves, do Fred Rompante, do Pedro Pinto e de tantas outras pessoas que tornam o espectáculo possível.
Natasha Correia






























































































































































































































































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